segunda-feira, 28 de março de 2011

A falta que faz...

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade


Hoje escrevo pra uma pessoa em especial. Escrevo pra ela porque não sei dizer, porque não consigo olhar nos olhos e assistir a dor de perder a mãe, mantendo me ainda com o discernimento de apoiar.
O sábado foi de tristeza, foi de perda pra uma querida e amada família. A mãe se foi. E o estilo dos cuidados, do abraço e do carinho prestado, foi pra uma dimensão desconhecida e, ainda por mim, temida.
Lembro me da pequenina tia Nilza e suas confusões com a palavra "patola"...rs. 
Hoje eu tenho certeza de que ela não sente mais dores, não sofre mais. Está mais perto de Deus.
Eu, se estivesse no  lugar dela, não teria aguentado muito tempo. Já teria desistido da vida. Mas ela não. Foi valente, aguentou um fardo pesado demais e é por isso que eu a tenho como uma grande heroína. Havia aqui o seu grande tesouro, que precisava de seus encantos.
Mas Deus resolveu que seria de outra forma, que a queria mais perto Dele, afinal, pessoal qualificado desse jeito não é fácil de achar. E na grande empresa do céu, era preciso alguém pra fazer o chá mate.
Ficou aqui a saudade, que sabemos, não irá passar. Vai se transformar cada dia mais em algo mais doce, e lembraremos de suas risadas com um sorriso também.
Queria hoje, poder pegar minha amiga no colo, como se faz a mãe, e tirar dela esta dor imensurável. Levá-la pra alguma sala, onde fosse possível que o tempo passasse sem as consequências dessa perda. Mas limito me a estar aqui, ao seu lado, calada dentro de minhas inadequações verbais, lidando com a difícil arte de convencer-nos do mundo real, que apresenta se com o vazio de mais uma mãe que voltou a ser anjo .

quarta-feira, 23 de março de 2011

Materialidade do sonho

O Filho Que Eu Quero Ter

Toquinho/Vinícius de Moraes

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter

No melhor estilo mãe, posso realmente dizer que, sentir as diminutas mãos de meu filho passando pelo meu cabelo, deitada, assistindo a qualquer filme do Shrek ou do Toy Story, ou dormir sem quase me mexer, com a perna dele passando por cima de mim, é o melhor acalanto que meu coração recebe diariamente.
Queria poder mostrar  toda a delícia e a grandeza dos pequenos detalhes de carinhos infantis.
É preciso sentir o tanto amor que se tem, pra valorizar esse sonho lindo de morrer.
Foi o meu sonho, materializado em 50cm e 3,200Kg, no dia 10/12/2003, às 20h58 min.